Um toró se armando sobre Belém (Foto: Guilherme Guerreiro Neto)

Um toró se armando sobre Belém (Foto: Guilherme Guerreiro Neto)

A alma de Belém é cheia d’água. E não só por conta da cidade se assentar na beira do rio. Aqui dá para ficar encharcado de dois jeitos. Pode ser pelo calor que, aliado à alta umidade (olha a água aí!), faz suar um bocado. “Égua da brea!”, dizem os paraenses em referência a essa quentura molhada, uma sensação de estar em cozimento. Pode ser também pela chuva, companheira de sempre, que, de tanto cair, faz parte do que é Belém. Transbordando o aspecto de fenômeno natural, a chuva assume um lugar afetivo na relação com quem anda por estas bandas. Mesmo quando chega grosseira, em sua persona toró.

“A chuva acompanha a paisagem de Belém. E a paisagem geográfica é introvertida pelo imaginário na emoção. Há uma paisagem visível, a passagem geográfica, e há uma paisagem emocional que é interior e decorre da convivência nessa paisagem geográfica. Esse reflexo da paisagem exterior na paisagem interior, no caso de Belém, inclui a chuva como um dos aspectos característicos”, acredita João de Jesus Paes Loureiro, poeta e professor do Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia da UFPA.

Diz-se, em tom de anedota, que há duas estações do ano em Belém: uma em que chove o dia todo, outra em que chove todo o dia. Exageros à parte, como o calor é constante, a variação das chuvas acaba, de fato, por definir as estações: de dezembro a maio, há maior incidência de chuvas; de junho a novembro, a molhadeira diminui. Agora em maio, a quantidade de chuva por aqui deve ficar de 20% a 30% acima da média. Para a última semana do mês, durante a Compós 2014, a estimativa do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) é de 80mm de chuva – quantidade considerada normal –, sendo 70% ao anoitecer e à noite e 30% à tarde. Na dúvida, não custa trazer a sombrinha.

Hora marcada
Antigamente, a chuva de Belém tinha fama de aparecer com hora marcada. Por voltas das 14h, religiosamente, a sesta de depois do almoço era embalada pelos pingos d’água, que amenizavam o bafo quente das tardes na altura do equador. Embora a fama permaneça, não cabe mais esperar da nossa chuva tal pontualidade. “Isso hoje é um mito. As chuvas não têm hora marcada. Ocorreu variabilidade nos horários, uma variabilidade que é sazonal”, afirma José Raimundo Abreu, coordenador do 2º Distrito de Meteorologia do Inmet. De certo a chuva perdeu n’alguma esquina de Belém o relógio que garantia a presteza de sua chegada. Mas não demora ela cai, mesmo que a hora seja incerta.

A afinidade da chuva com Belém segue firme, mantendo a sensação de algo que faz bem à cidade. “A chuva de Belém é benfazeja. Porque as pessoas acham que ela amaina o calor. Ela não causa desastres, é uma chuva que tem uma maneira de ser vista que não é hostil. As pessoas, se quiserem, tomam banho na chuva”, comenta Paes Loureiro. O viés poético e afetivo vem sendo confrontado cada vez mais com alagamentos que invadem casas nas periferias e com o trânsito parado nos fins de tarde chuvosos.

“Está acontecendo aumento na quantidade de chuvas em todos os meses e, consequentemente, nos totais anuais. A diferença nos últimos cem anos atinge valores superiores a 500mm”, informa José Raimundo. Para Paes Loureiro, no entanto, é a má administração pública que corrói Belém, marcando-a com uma urbanização precária. E também os moradores, quando fraudam a planificação municipal. “A chuva continua inocente nesses crimes cometidos contra a cidade”, defende o poeta.

 

Guilherme Guerreiro Neto