Ver-O-Peso | Belém-Pará (Foto: Raimundo Pacco)

Ver-O-Peso | Belém-Pará (Foto: Raimundo Pacco)

“Bora, rapaz, quanto dá pra fazer essa dourada aí?”
“Vou fazer nove reais pra ti.”

Quase 7h da manhã, Pedro Messias negocia os últimos peixes do dia na beira da Baía do Guajará, que banha Belém. O trabalho começara 1h da manhã. Durante toda a madrugada, os barcos atracam e descarregam mercadorias para abastecer a cidade. Pedro se apoia num móvel de madeira, que funciona como o caixa, e mantém nas mãos uma agenda, onde anota as vendas. Na frente dele, a balança para pesar o pescado. Profissão: balanceiro.

Ali, na beira do rio, Belém se criou. E foi pela medida da balança que nasceu o Ver-o-Peso. Mas a pesagem não estava relacionada à venda nem era feita por feirantes. No final do século XVII, as mercadorias que chegavam passaram a ser pesadas e taxadas, com recolhimento de impostos para a Câmara de Belém. De ponto fiscal à feira livre. O Ver-o-Peso foi crescendo, ganhou o Mercado de Carne, o Mercado de Peixe e tornou-se uma das maiores feiras da América Latina.

 Indefinições do aniversário

O município comemora hoje, 27 de março, os 387 anos do Ver-o-Peso. Mas tanto a data quanto a idade são discutíveis. Para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), um marco inicial importante é 1688, ano em que foi criado o entreposto fiscal Casa de Haver o Peso ou Ver-o-Peso. Se tomarmos 1688 como ponto de origem, o Ver-o-Peso estaria completando 326 anos. O ano que bateria com os 387 anos, 1627, marca a concessão das terras pelo governador à Câmara.

O Departamento de Feiras, Mercados e Portos da Secretaria Municipal de Economia também considera 1688 como ano inicial do Ver-o-Peso. É de lá, aliás, que surge o mês de março na história, mas não o dia 27. Data de 21 de março a assinatura da Provisão Régia de criação da Casa de Haver o Peso, com homologação em 26 de março. Essas informações de datas e anos aparecem no artigo do historiador Ernestro Cruz. Para o IPHAN, seria muito difícil definir um dia específico de fundação do Ver-o-Peso.

Ver-O-Peso | Belém-Pará (Foto: Raimundo Pacco)

Ver-O-Peso | Belém-Pará (Foto: Raimundo Pacco)

Do lixo ao patchouli

O ciclo de trabalho da feira não para. Apesar dos ponteiros do relógio inglês de 12 metros de altura em frente à doca do Ver-o-Peso, que já não se movem. Lá da Praça do Relógio, Paulo Chaves anuncia pelo microfone: “Pra acabar com hemorroida, azia, gastrite, gases, dores no estômago, prisão de ventre”. Em sua banca, Paulo vende pomadas, garrafadas e outros materiais para tratar problemas de saúde. Não deu para saber muito além disso. Entrevista com ele, só se pagar. São 20 reais.

O peso da sujeira acumulada no mercado quem sente é o Robson da Silva. Ele não cobra para conversar, mas também não se demora. Segue varrendo a vala da avenida Portugal que dá para a Pedra do Peixe. Robson trabalha há um ano na área do Ver-o-Peso como gari, fazendo o que pode. A imundice da feira reivindica a presença de autoridades no assunto: os urubus. Num apartheid socioanimal, eles ocupam a calçada enquanto as brancas garças se acomodam sobre os caminhões parados por ali.

O Ver-o-Peso é o lugar do banho de cheiro, das ervas medicinais, das garrafadas, dos perfumes místicos. Tem amansa-corno, agarradinho, comigo-ninguém-pode, chega-te-a-mim… “De tudo um pouco a pessoa faz pra dar sorte, pra abrir os caminhos, pra vencer”, conta Edna Teles, a erveira de gargalhada fácil, neta da lendária Dona Cheirosa. Quem chega dizendo que não acredita, ela aconselha logo a nem levar. E lá se vão 35 anos de Ver-o-Peso espalhando, como diz uma canção local, o feitiço caboclo.

Comendo no Ver-o-Peso

Já passam das 8h. “Veja se tá certo. Dois completos”, diz um cidadão, entregando o dinheiro. “É pão só com manteiga, é?” “É. Eu lhe dei seis… Quanto é com ovo?” A feirante ainda pergunta como está a madame. Dali a pouco o freguês sai do Café da Índia com dois cafés e dois pães – um com manteiga, um com ovo. Em outro box tem gente encarando uma sopa. Não demora e já é hora do açaí batido, que pode vir com um peixe frito junto.

No Box da Lúcia, começa a preparação para o almoço. Às 10h30 os clientes começariam a aparecer. E dá gente graúda lá. Tanto que na feira corre o apelido de barraca dos engravatados. Lúcia é Lucilene Torres. Há 16 anos trabalha no Ver-o-Peso. Primeiro com “churrasquinho de gato”. Depois, já no box fixo, com peixe e camarão como carros-chefe. Mas, ela não apenas trabalha ali. “Pra mim, o Ver-o-Peso é minha casa.”

Vidas e memória

As frutas amazônicas, a farinha de mandioca, a maniva, o jambu. “Aqui tem de tudo que você imaginar”, afirma Maria Silva. O negócio dela é o tucupi, líquido extraído da mandioca que é base de uns e outros pratos típicos do Pará, como o tacacá. Maria assumiu o trabalho na feira depois que o marido morreu. Rosimar Chaves ficou no lugar do sogro. Entrou há cerca de um ano tendo que aprender do zero. Da venda do coco já ampliou o serviço para a castanha do Pará. Pegou o jeito pra descascar a castanha só de olhar.

Por acaso ou por vocação, muitas vidas passam pelo Ver-o-Peso. E a feira vira casa. Nem sempre bem cuidada, nem sempre segura. O conjunto arquitetônico e paisagístico é tombado pelo IPHAN desde 1977. Mas o que move a feira e faz dela um ponto turístico peculiar é sua gente. O Ver-o-Peso funciona como um entreposto, não mais fiscal, mas de histórias, onde a memória da cidade é recontada e atualizada. Ainda diz muito sobre Belém.

Fontes consultadas:

CARVALHO, Luciana. Ver-o-Peso. Belém: IPHAN, 2011. Disponível em: http://casadopatrimoniopa.files.wordpress.com/2013/12/guia_impressc3a3o.pdf. Acesso em: 26 mar. 2014.

CRUZ, Ernesto. O Ver-o-Pêso: um capítulo da história colonial do Pará. Revista de História, São Paulo, v. XXIV, n. 50, p. 519-526, 2º trimestre 1962. Disponível em: http://revhistoria.usp.br/images/stories/revistas/050/A014N050.pdf. Acesso em 26 mar. 2014.

LIMA, Maria Dorotéa de. Ver-o-Peso, patrimônio e práticas sociais: uma abordagem etnográfica da feira mais famosa de Belém do Pará. 2008. 219 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Universidade Federal do Pará, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Belém. Disponível em: http://repositorio.ufpa.br/jspui/bitstream/2011/3059/1/Dissertacao_VeroPesoPatrimonios.pdf. Acesso em: 26 mar. 2014.

Guilherme Guerreiro Neto