Lista de Trabalhos Submetidos ao 35º Encontro Anual da COMPÓS – 2026
O período de submissões para o 35º Encontro Anual da COMPÓS foi encerrado em 23 de fevereiro de 2026, totalizando 597 trabalhos submetidos aos 24 Grupos de Trabalho (GTs). A lista de trabalhos divulgada nesta etapa tem caráter exclusivamente informativo e não implica em aceite, tampouco confirma a adequação dos textos às normas de submissão. A conformidade com as normas será verificada na próxima fase, durante o processo de avaliação e emissão de pareceres. Ao término da avaliação, cada GT selecionará 12 trabalhos, com base no sistema double blind peer review. A lista final dos trabalhos APROVADOS será divulgada conforme o cronograma, a partir de 6 de abril de 2026.. Título dos trabalhos submetidos YAMAKI NI OHOTAI XOA! A batalha pela Narrativa, a Etnocomunicação e as Tramas Digitais do Povo Yanomami DAS CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO ÀS CONDIÇÕES DE EXISTÊNCIA DOS DISCURSOS: história, epistemologia e aplicação dos conceitos na comunicação TINY DESK BRASIL: Estratégias expostas de precorporação e plataformização do trabalho na música Anticolonialismo e terceiro-mundismo: As ideias de Fanon no contexto da Guerra da Argélia RESPONSABILIDADE NO JORNALISMO SONORO EM PRIMEIRA PESSOA A DISPUTA SIMBÓLICA PELO BOLSONARISMO APÓS A PRISÃO DE JAIR BOLSONARO A COMUNICAÇÃO DA SUPREMA CORTE NORTE AMERICANA: opacidade e desafios Decolonização e outros projetos epistemológicos para o campo da Comunicação AGOSTO A GOSTO DO CONSUMO: festividades, sociabilidades e os consumos na/da cidade de Montes Claros/MG ENTRE MULTIDÃO E MESSIAS: O PERSONALISMO DIGITAL E SUAS IMPLICAÇÕES NAS DEMOCRACIAS JOVENS Jesus e o caranguejo: embates pelo “direito à censura” no Brasil contemporâneo COMUNICAÇÃO PÚBLICA E DESAFIOS DE PESQUISA: novas e velhas problemáticas que envolvem os estudos empíricos A reconfiguração do mito da Gumiho em O Deus e a Raposa: corpo feminino, desejo e gênero Agora todo mundo entende de moda: Uma análise etnográfica sobre o uniforme da delegação brasileira nas Olimpíadas de Paris 2024 CINEMA E AUDIOVISUAL COMO MÁQUINAS DO TEMPO: Mídia, memória e imaginário na produção seriada e cinematográfica contemporâneas NA ENCRUZILHADA FOTOGRÁFICA: “Nós Ousamos Sonhar” ACERVO DIGITAL DO 8 DE JANEIRO: procedimentos metodológicos e desafios do acesso A IA COMO TECIDO ORQUESTRADOR: repensando o futuro multiplataforma do jornalismo JUVENTUD, CINE Y REBELDÍA DESPUÉS DEL “FIN DE LA UTOPÍA” Precisamos falar sobre pseudoarqueologia: implicações para a prática arqueológica e sua comunicação Nos limiares das tradições do circuito carioca de rua de Forró-Pé-de-Serra O JORNALISMO DECLARATÓRIO COMO PRÁTICA: uma análise a partir da cobertura política digital local O MUNDO QUE CADA NARRATIVA GUARDA Figuras do anônimo em Eduardo Coutinho: trânsitos entre cinema e arte Embalos passionais das canções melodramáticas: um olhar panorâmico para a obra de Karim Ainouz “HAPPY TRUMP” E CONEXÕES ESTRATÉGICAS ENTRE CARICATURAS, MASCOTES, MARKETING POLÍTICO E PUBLICIDADE INFANTIL O OBJETO COMPLEXO COMUNICACIONAL E A PAISAGEM NA IMPRENSA MINEIRA DO FINAL DO SÉCULO XIX A TENSÃO ALGORÍTMICA DA CIDADANIA: ILETRAMENTO DIGITAL, CONFLITO GERACIONAL E A METATEORIA DAS TENSÕES COMUNICACIONAIS Memórias e direito ao tempo de pessoas LGBTQIAPN+ na série Máscaras de oxigênio não cairão automaticamente Entre a afetação e a normatividade: Masculinidades gays, futebol e regimes de pertencimento no Instagram Memória da gripe espanhola e da covid: passado e presente nas mesmas páginas do jornal DA SUBJETIVAÇÃO INSURGENTE À PROFISSIONAL: uma genealogia do cinema comunitário latino-americano e caribenho a partir de Fernando Birri O JORNAL COMO DISPOSITIVO DE MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO E DA CULTURA NAS MANIFESTAÇÕES POPULARES: O CASO SOBRE O BLOCO DA MUDANÇA DO GARCIA “ESSE JINGLE FOI PRODUZIDO COM AUXÍLIO DE IA”: limites éticos, estéticos e tecnológicos do uso de inteligência artificial generativa na produção musical para campanhas educativas Velocidade versus segurança: uma análise da narrativa jornalística à aprovação da vacina contra Covid-19 GIRLS LOVE (GL) TAILANDÊS: LGBTQIA+, cultura asiática e soft power O DISSENSO ENCARNADO: Mediação Televisiva e Feminismo Pentecostal no Conversa com Bial A SOCIEDADE INCIVIL E A POSSIBILIDADE DE SUA SUPERAÇÃO: repensando as relações humanas a partir das teorias da comunicação midiática O sentido intergeracional do dever de memória: narrativas das segundas gerações sobre a luta dos chilenos contra a ditadura NEGRITUDE LÍQUIDA COMO EXPERIÊNCIA ESTÉTICA SOCIAL LISTENING: conceitos, aplicações e diálogos teóricos Um estudo de legitimidade do agronegócio brasileiro: análise da comunicação organizacional da Agroceres e Cargill FANTASMAS, PERNAS VOADORAS, VAMPIROS E OUTROS MONSTROS: o insólito na ficção latino-americana SOBERANIA DIGITAL COMO REDE DE INTERAÇÃO ENTRE POLÍTICA, DIREITO E TÉCNICA DNA e VISONE: contribuições metodológicas para a análise de redes discursivas e estratégias de comunicação TELENOVELAS ORIGINAIS DO GLOBOPLAY: adaptações do formato no streaming AMBIÊNCIAS COMUNICACIONAIS, ATIVOS FONOGRÁFICOS E PAISAGENS AFETIVAS: o Nordeste como espaço-problema A PLATAFORMIZAÇÃO DO TRABALHO SEXUAL: estudo de caso do GP Arena FOLK HORROR COLONIAL: a influência do colonialismo e da escravidão na construção do folk horror no cinema brasileiro E AS BOAS HISTÓRIAS, QUEM CONTA? Autodefinição e Novas Narrativas de Mulheres Negras no Podcast Afetos SUPER RÁDIO: Práxis, Inclusão e a Armadura Teórico-Prática na Transmissão Esportiva de um Aluno com Deficiência Visual CINEMA-RITUAL, IMAGEM-DEVIR: o mito das Yãmiyhex e os regimes de visualidade no cinema e na instalação de Sueli Maxakali SENTIDOS E USOS DA REPRISE TELEVISIVA NO JORNAL O ESTADO DE S. PAULO (1950–1990) UMA NARRATIVA DE PESQUISA E PESQUISADORAS FEMINISTAS DO PPGCOM-UFMS PODCASTING E PROTAGONISMO ESTUDANTIL: projeto de educomunicação para combate à desinformação em Caruaru/PE OS USOS DO PASSADO NA EXPOSIÇÃO ARTISTAS ENCONTRAM TESTEMUNHOS: curadoria, pós-memória e reaproveitamento criativo de arquivos audiovisuais da Shoá em sala de arte ESCUTAR AS CURVAS DOS GESTOS VITAIS: epistemologias coreográficas afro caribenhas e afro indígenas do passinho dos malokas O WhatsApp como infraestrutura comunicacional nas práticas comerciais na comunidade ribeirinha Foz do Rio Vila Nova (Santana – AP) COMUNICAÇÃO DE NARRATIVAS DE INOVAÇÃO EM STARTUPS: Um Ensaio Teórico sobre Tipos Narrativos, Estratégias de Credibilidade e Legitimação em Contextos Periféricos INTEGRAÇÃO, COMUNICAÇÃO PÚBLICA E PANAMAZÔNIA: Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) conectando países O QUE É A CRÍTICA NA EDUCAÇÃO MIDIÁTICA?: Uma análise do Guia da Educação Midiática do EducaMídia ATUALIDADE DAS PRÁTICAS NOTICIOSAS PUBLICIDADE PARASSOCIAL ALGORÍTMICA: ethos, pathos e presença sintética na performance da cyber influenciadora Lil Miquela LUEDJI LUNA E AS CENAS DE MITOLOGIAS AFETIVAS EM UM
Compós entrevista: Bernardo Schmitt, menção honrosa de dissertação do Prêmio Compós 2025
A Compós entrevistou Bernardo Schmitt, bacharel em cinema pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mestre e agora doutorando em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atualmente, pesquisa a história da exibição cinematográfica e os primórdios do cinema em Santa Catarina. Bernardo é autor da dissertação “O cinematógrafo em Santa Catarina 1897 – 1911”, menção honrosa da categoria no Prêmio Compós de Teses e Dissertações Eduardo Peñuela 2025. Compós: Eu gostaria de começar perguntando a você, e para a sua trajetória, o que significou o Prêmio Compós?Bernardo Schmitt: Fiquei muito feliz com o Prêmio. Academicamente, é uma validação da pesquisa e, pessoalmente, porque foi um trabalho que me demandou muito esforço. Eu viajei muito, horas de trabalho em arquivo, trabalho em campo… Então é muito bom ver que, depois de todo esse sofrimento e trabalho para fazer o projeto, o resultado saiu como eu esperava, com uma boa qualidade, uma boa composição, um bom trabalho acadêmico. E também acho que, academicamente, é ótimo ter tanto essa validação da qualidade do projeto, quanto da área em que ele está inserido, ver um trabalho que é do cinema e de uma área específica, que a gente tem chamado de pesquisas em histórias de cinema – dentro do conceito do professor João Luiz Vieira, trabalhos que focam em exibição em salas cinematográficas… O meu é realmente um trabalho memorialístico, um trabalho de memória, da relação do público, de entender o cinema enquanto um fenômeno econômico, social e político, e não só sobre os filmes. Então, ver aqui um trabalho dentro dessa área que tem crescido em tempos recentes, ter essa premiação aqui e não só no campo do Cinema. Eu, na minha trajetória, sempre trabalhei dentro dessa área e não necessariamente no campo maior da Comunicação. Ver esse trabalho chegar na Compós foi muito legal. Compós: A sua dissertação fala sobre os primeiros anos das sessões cinematográficas em Santa Catarina e você acabou de comentar sobre a sua relação com o cinema, mais do que com a comunicação. Como surgiu esse interesse, a vontade de estudar essa história? Bernardo: Eu sempre me interessei muito por temas específicos da história catarinense, eu sou de lá. Desde a graduação, fiz disciplinas na História em que a gente trabalhou diretamente com fontes primárias, com a Guerra do Contestado… Eu fiz um quadrinho, com edital, em que eu trabalhei a história de uma cidade de Santa Catarina, também com jornais. A ida ao arquivo sempre foi algo que eu gostei muito e é uma metodologia que eu gosto muito. O “estar no arquivo”, ter contato direto com essas fontes, eu sinto que é a parte mais divertida, realmente parece que tu descobres as informações, faz e cria as conexões, confirma ou nega tuas hipóteses. Eu entrei no mestrado com uma pesquisa completamente diferente, eu pesquisava Orson Welles usando um referencial de Foucault e Bakhtin, algo completamente distinto. E numa disciplina de mestrado, ministrada pelo professor Rafael de Luna, a gente estudou o primeiro cinema no Brasil e eu trabalhei com uma base de dados que ele criou junto com o Lupa, o Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual da UFF. Nessa base de dados, eu tive contato com uma junção de vários dados sobre a história do cinema no Brasil, sobre os primórdios do cinema, e eu vi que Santa Catarina tinha pouquíssima coisa. E não só tinha pouca coisa, como eram informações claramente cheias de lacunas, ignorando cidades muito relevantes como Blumenau e Joinville, e, talvez, dando destaque para outras menores. Eram informações pela metade e isso me animou a começar a pesquisar. Aí surgiu um artigo para a disciplina, só que foi crescendo e eu fiquei cada vez mais interessado por essa pesquisa e menos pela que eu entrei com o projeto na UFF. Ao ponto de, depois de um ano, o segundo do mestrado, eu resolvi propor ao meu orientador mudar completamente de direção. Então essa dissertação em si foi escrita no segundo ano do mestrado e aí comecei, consegui viajar até os arquivos e ela foi crescendo, crescendo, crescendo… E eu fui vendo que tinha muita informação a ser encontrada. Compós: É muito legal você compartilhar isso, sobre os caminhos na pós-graduação. Nem sempre é aquilo que a gente espera, não é? Eles se modificam, eles se transformam.Bernardo: É… A gente, às vezes, chega no mestrado saindo direto ou depois de um tempo fora da graduação e, talvez, não conhecendo tanto o campo, as possibilidades, o que nos interessa… E vai descobrindo ao realmente estar ali e ver outros trabalhos, pesquisas, o que a gente pode contribuir mais. Às vezes é mais difícil ver isso estando fora da pós, eu acho. Compós: Em sua pesquisa, você também faz uma viagem pela história de Santa Catarina. Você teve que, literalmente, viajar para fazer essa coleta de dados e olhar esses arquivos. Como você trilhou esse percurso e o fundamentou teoricamente? Bernardo: É, foi também uma viagem literal e eu tenho sorte que tenho família em alguns cantos de Santa Catarina… Eu comecei pesquisando pela Hemeroteca Digital, mas muita coisa do estado não está disponível ali, principalmente os jornais em língua alemã. Então eu precisei realmente visitar Blumenau, Joinville… Acho que o mais ao sul que eu fui, foi Tubarão, que é uma viagem pelo litoral catarinense. E acho que muito do embasamento histórico vai surgindo da forma como eu enxergo o meu objeto, eu queria ter um entendimento um pouco holístico do cinema, entender ele colocado na sua historicidade. Então, como eu não estou analisando necessariamente como textos cinematográficos e sim enquanto processo, eu precisava entender o cinema inserido na economia do período, entender ele como uma commodity, um produto que está sendo transportado, levado até as pessoas, comprado e vendido como um serviço. Entender o surgimento dessas salas de cinema e a forma como o cinema se organiza enquanto espetáculo. E para isso tinha que entender a economia de Santa Catarina, a formação urbana e a transformação do espaço geográfico do
Compós entrevista: Raimundo Miguel Benjamim, menção honrosa de dissertação do Prêmio Compós 2025
A Compós entrevistou Raimundo Miguel Benjamim – Ray Baniwa, comunicador indígena e pesquisador do povo Baniwa, do Rio Içana, São Gabriel da Cachoeira (AM). É mestre e doutorando em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), investigando o uso e a apropriação das tecnologias de comunicação, e os impactos da internet nas comunidades indígenas do Rio Negro. Também é co-fundador da Rede Wayuri e membro do Instituto da Hora (IDH). Ray é autor da dissertação “Comunicar para resistir e existir: de rádio cipó à Rede de Radiofonia Indígena no Rio Negro – Amazonas”, menção honrosa da categoria no Prêmio Compós de Teses e Dissertações Eduardo Peñuela 2025. Compós: O que significou receber a menção honrosa do Prêmio Compós 2025 para você? Considerando a sua vida pessoal, acadêmica e profissional? Ray Baniwa: Receber a menção honrosa do Prêmio Compós Eduardo Peñuela, durante o 34º Encontro Anual, foi um momento muito simbólico e feliz para mim. Simbólico dada a importância da organização, que é uma das mais importantes na área da Pós-Graduação em Comunicação no Brasil, e feliz por ter minha dissertação reconhecida nesse espaço. O reconhecimento tem muitos significados para mim. Como estudante e pesquisador indígena, é a importância da presença de estudantes na academia, especialmente na pós-graduação, para trazer ciências e experiências dos povos indígenas, produzir e circular esses conhecimentos. No campo pessoal, significou reconhecimento de uma trajetória acadêmica marcada pelas dificuldades e enfrentamento de desafios, não só minha, mas do coletivo de comunicação que faço parte, a Rede Wayuri, e de um território, o Rio Negro, e seus povos. A menção honrosa do Prêmio eu compartilho com amigos, colegas comunicadores indígenas e lideranças nas minhas redes sociais, da qual eles fazem parte da conquista. Chegou como uma motivação a mais para seguir adiante no doutorado, que voltei esse ano, para dar início no mesmo Programa da UFRJ. Compós: E como surgiu o seu interesse pelo tema da comunicação indígena e das tecnologias como ferramentas de luta? Ray: A escola Baniwa e Koripako Pamáali, um projeto de educação escolar do meu povo, me permitiu e possibilitou os primeiros contatos com as tecnologias, como a internet, o computador, ainda que de forma precária devido às condições na época, em meados de 2004. Esse contato me levou a conectar com outras experiências e pessoas que trabalham com tecnologias, incluindo parentes indígenas, em espaços de debates sobre as tecnologias de comunicação e internet – como o Fórum de Internet no Brasil. Ali, percebi como elas poderiam ampliar nossas vozes e fortalecer nossas lutas. A partir de 2008, junto com grupos de alunos, criamos o blog da escola e meu pessoal, no qual escrevia sobre os principais acontecimentos sociais e políticos no território Baniwa. Essa experiência e nossas possibilidades de formação me levaram a ser comunicador da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), em 2013. Dentro dessa organização, um dos projetos que se tornou conhecido e reconhecido internacionalmente foi a Rede Wayuri (Rede de Comunicadores Indígenas do Rio Negro), criada em 2017. Com a comunicação dessa organização representativa dos povos indígenas que vivem no Rio Negro, passei a vivenciar isso diariamente, vivi e continuo vivendo de perto o impacto político e social da comunicação e o uso das tecnologias de comunicação nesse território. Esse uso ficou evidenciado, especialmente, durante a pandemia, quando a rádio e a internet foram essenciais para salvar vidas, tanto para circular informações de enfrentamento e cuidado, como para enfrentar a desinformação. Hoje, nós povos indígenas, continuamos vivendo em contexto de ataques constantes aos nossos direitos constitucionais. Nos apropriarmos das novas tecnologias e estar presente no ambiente digital é demarcar nossos territórios e continuar resistindo para existir. Compós: Sobre o conjunto teórico que baseia sua investigação, como foi articular os conceitos de etnocomunicação, etnomídia, comunicação ancestral indígena e comunicação em rede na sua pesquisa? Ray: Articular esses conceitos exigiu reconhecer que a comunicação indígena é muito mais ampla do que apenas meios técnicos. No caso do Rio Negro, região onde desenvolvi meu trabalho, a articulação desses conceitos leva ao que chamei de um ecossistema comunicacional, pois inclui a comunicação ancestral presente nos grafismos, nas cantos, nos rituais, nas narrativas orais e nas relações com o território e os seres não humanos. E depois, vem a etnocomunicação e a etnomídia, conceitos que ajudam a compreender como povos indígenas produzem e circulam conhecimento e informação no território, disputando narrativas e fortalecendo identidades. E por último, a comunicação em rede, na qual busquei compreender e analisar o uso das tecnologias digitais e das novas formas de comunicação que os povos indígenas passaram a usar no contexto contemporâneo. Na minha dissertação, procurei mostrar que essas dimensões se entrelaçam. As redes digitais só fazem sentido quando conectadas à nossa forma ancestral de comunicar; e as práticas de resistência nas mídias indígenas derivam dessa sabedoria coletiva. Compós: Como foi o processo de coleta de dados e o resgate histórico da comunicação indígena no Rio Negro? Quais desafios apareceram nesse processo? Ray: A coleta de dados foi um processo de escuta e de memória. Muitas das histórias sobre comunicação no movimento indígena do Rio Negro – especialmente as das décadas de 1980, 1990 e início dos anos 2000 – não estão documentadas, são raros os registros documentais. Elas vivem na lembrança das lideranças, nos relatos dos operadores de rádio, nas experiências de comunicadores da FOIRN e nas memórias de quem participou da construção das primeiras iniciativas de projetos de comunicação ou da introdução das novas tecnologias na região. Durante a realização do meu trabalho, destaco alguns desafios que enfrentei, como a falta de registros formais, a história da comunicação indígena no Rio Negro e Brasil ainda ser pouco estudada, e a própria extensão territorial… Acessar algumas pessoas e comunidades demandou articulação, logística e tempo, e algumas pessoas consideradas importantes para o trabalho não foram acessadas por mim. Por isso, novos e mais estudos sobre o tema são de grande importância para a região do Rio Negro e outros territórios indígenas no
Compós entrevista: Marcel Hartmann, autor da dissertação vencedora do Prêmio Compós 2025
A Compós entrevistou Marcel Hartmann Prestes, jornalista e mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com período sanduíche no Canadá – na Université Laval (Québec) e Université du Québec à Montréal (Montréal), e especialista em Literatura Brasileira pela UFRGS e em Sociologia, História e Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Trabalhou como repórter em Porto Alegre e São Paulo e, atualmente, é consultor internacional de comunicação para a sede da Organização Pan-Americana da Saúde/ Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) em Washington, D.C. Marcel é autor da dissertação vencedora do Prêmio Compós de Teses e Dissertações Eduardo Peñuela 2025, intitulada “Dilemas éticos de jornalistas brasileiros no jornalismo metrificado”. Compós: Vamos começar com o que representou para você, na sua trajetória, ser o vencedor do Prêmio Compós na categoria dissertação? Marcel Hartmann Prestes: Eu acho que representa um reconhecimento muito bonito. Tanto a pesquisa que eu conduzi e a orientação feita pela minha professora, a Thaís Furtado, quanto um reconhecimento da Compós à área de estudo a qual se filia a minha pesquisa, que é a de ética jornalística, jornalismo digital e, sobretudo, os avanços da tecnologia no jornalismo. Obviamente, eu não fiz uma pesquisa de mestrado esperando um prêmio e eu confesso que fiquei muito surpreso quando me vi entre os finalistas. A gente não esperava. O Prêmio Compós é simplesmente o mais prestigioso da área de Comunicação do Brasil, então achei surreal, primeiro, eu ter sido finalista e, depois, vencedor. Eu acho que é importante lembrar que muitas vezes o mestrado é uma atividade bastante demandante, emocionalmente. Eu fiz o mestrado trabalhando, então foi ainda mais exigente, para mim, conseguir conciliar isso com todos os meus horários. Eu fiquei muito feliz com a sensação de que esse esforço valeu a pena e que as discussões que a dissertação propôs para a academia são válidas, importantes e que tem o potencial de provocar outras discussões. Compós: Sobre a sua pesquisa, você relaciona a perspectiva da ética jornalística com o contexto da metrificação no jornalismo. Como surgiu esse tema de pesquisa? Ele vem da sua atuação profissional ou de outro lugar? Marcel: Surgiu por conta de questionamentos meus. Quando comecei o meu mestrado, eu trabalhava como repórter em uma grande redação e eu via a relevância que as métricas tinham na produção e edição jornalística, o quanto elas adquiriam a predominância nas discussões de pauta. Por vezes, havia uma disputa de tempo e energia entre jornalistas para as pautas, as reportagens e as notícias que eram de grande interesse público, mas menor potencial de audiência, concorrendo com pautas que eram de menor interesse público, mas maior potencial de audiência. Eu via, muitas vezes, uma certa pressão para equilibrar ambos os interesses e discussões que eram importantes ficavam de lado ou eram reduzidas porque gerariam menos interesse da audiência nessa nova configuração da produção jornalística. Eu sempre me interessei pela questão da ética jornalística, desde a época da faculdade. E lembro que, por conta própria, comecei a ler livros dessa temática para ver se eu conseguia achar uma resposta e eu não achei. Eu discutia isso com colegas de trabalho e eu pensava “eu preciso estudar isso de fato para ver se tenho uma resposta e, talvez, a resposta seja eu perguntar para outras pessoas o que elas acham disso”. Então veio, de certa forma, de uma inquietação pessoal com uma curiosidade intelectual minha. “Já que não tenho essa resposta, então de repente eu deveria estudar”. E é melhor estudar isso fazendo um mestrado, tendo uma orientação, em vez de sozinho em casa lendo livros de ética jornalística. Foi uma discussão muito rica porque, nessas entrevistas que conduzi, eu tentei buscar pessoas de diferentes faixas etárias, regiões do Brasil, cargos justamente para ter uma visão diferente, a partir de uma perspetiva demográfica. Eu consegui ver que, apesar dessas diferenças e desses marcadores, havia uma espécie de confluência de opiniões e de avaliações sobre esse novo cenário. Foi interessante porque eu comecei a pesquisa com muitas perguntas e, buscando respostas, eu saí com mais perguntas ainda. Eu acho que talvez seja um indicador de um bom mestrado terminar com mais perguntas do que a gente tinha antes de começar. Compós: Você articula algumas correntes teóricas sobre a ética, duas mais clássicas (a deontologia kantiana e o consequencialismo) e duas mais recentes (a ética do cuidado e a das virtudes). Como foi para você fazer essa articulação? E o que você considera os principais achados desse esforço teórico? Marcel: Quando eu comecei o mestrado, a ideia era só focar nas correntes consequencialista e deontológica porque foram as que eu aprendi na época da graduação e que são as mais consolidadas. Para a minha banca de qualificação, eu chamei a professora de ética jornalística da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e ela sugeriu expandir e agregar essas outras duas correntes éticas, a das virtudes e a do cuidado. Ela falou “olha, são correntes que estão sendo, agora, muito discutidas na área da ética jornalística e elas podem enriquecer o teu trabalho”. Então foi um esforço que fiz para conseguir me adequar e agreguei duas teorias sobre as quais eu não tinha nenhum conhecimento. Eu fiz uma disciplina de ética no Programa de Pós-Graduação em Filosofia para conseguir me aprofundar na discussão… Eu sempre tive o receio de fazer mergulhos superficiais, sou bastante exigente com o meu trabalho e não queria fazer uma pesquisa para pincelar qualquer coisa, queria realmente falar com propriedade. Para que uma pessoa dos estudos de ética pudesse ler o meu trabalho e pudesse dizer “olha, esse pesquisador se embasou bem”. Então eu fiz essa disciplina de filosofia que foi muito importante e fiz dois mestrados sanduíche, uma coisa que ninguém faz, porque queria muito tirar um tempo para me dedicar à pesquisa. Eu queria viajar, queria morar fora. Então eu fiz um mestrado sanduíche primeiro na Universidade Laval, na cidade de Quebec, no Canadá francês. E depois eu fiz
Compós entrevista: Luana Chinazzo, menção honrosa de tese do Prêmio Compós 2025
A Compós entrevistou Luana Chinazzo Müller, jornalista (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), mestre em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e doutora com dupla titulação – em Comunicação pelo mesmo programa e em Sociologia pela Université Paul-Valéry Montpellier III. Realizou pós-doutorado na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), é professora e pesquisadora pós-doc no PPGCOM/PUCRS e integra o Laboratório de Comunicação de Risco (Cuidar_Com), o Grupo de Pesquisa Tecnologias do Imaginário (GTI) e o Laboratório de Internet e Ciência de Dados (LABIC/UFES). Luana é autora da tese “Socialidade e desinformação: análise de imaginários sobre as vacinas contra a Covid-19 no X (antigo Twitter)”, menção honrosa da categoria no Prêmio Compós de Teses e Dissertações Eduardo Peñuela 2025. Compós: Eu vou começar com a pergunta que eu sempre faço para os entrevistados: o que significou o Prêmio Compós? Na sua vida pessoal, na vida acadêmica e profissional? Luana: Foi uma grande honra pra começar. Eu lembro que, quando eu estava no mestrado, eu fiz uma disciplina de seminário na PUCRS. Os seminários são disciplinas intensivas em que a gente recebe professores de outras universidades, professores internacionais… E eu fiz com o professor Marco Roxo, da UFF, que incluiu na bibliografia uma dissertação que ganhou o Prêmio Compós, a do Márcio Teles. E eu fiquei pensando “nossa, que legal ganhar um Prêmio Compós. Imagina como tem que ser bom esse trabalho?”. E pareceu uma coisa tão fora do alcance, pela dimensão da Compós na área da Comunicação, fazer um trabalho reconhecido dessa forma, pareceu algo muito absurdo… E isso foi a primeira coisa que eu lembrei, um amigo me mandou que o trabalho tinha sido indicado e finalista, eu nem sabia que o programa tinha escolhido o meu trabalho e eu fiquei “nossa, eu fui indicada entre muitas teses, que eu sei que são excelentes, e fui selecionada como finalista entre outras diversas teses selecionadas pelos seus programas”. E eu pensei como a vida é… Às vezes, a gente nem se dá conta que almeja alguma coisa ou que é possível chegar em determinado local e as coisas vão acontecendo porque a gente dedicou o nosso tempo, porque fazendo o nosso trabalho a gente chega lá. Eu nem lembrava disso, não visei uma premiação, fiz o melhor que eu pude (dentro de todas as circunstâncias que é fazer um doutorado durante uma pandemia) e consegui ter esse reconhecimento. Então teve esse lado emocional, de lembrança, de memória e tem o orgulho de estar entre tantos trabalhos. Depois eu fui ler os trabalhos, conhecer os finalistas e são trabalhos realmente excelentes. O trabalho que ganhou o prêmio é de um tema tão relevante no momento e, principalmente, no momento em que a premiação ocorreu. É um orgulho enorme e é uma responsabilidade também, pois ter essa validação e representar tantas produções no campo da Comunicação. Tem muitos outros trabalhos tão relevantes e eu me sinto honrada. Eu considero que eu estou representando e que essa premiação é da produção científica na Comunicação porque meus colegas, da minha instituição e em outras instituições, que não foram finalistas ou não receberam a menção honrosa, não tira a validade do trabalho deles. Infelizmente não dá para premiar todo mundo, mas fico feliz por mim com certeza. Em questão de vida acadêmica, teve uma visibilidade muito positiva, eu fui parabenizada por referências, pela minha bibliografia… Receber o Prêmio durante a Compós, com tantos pesquisadores que eu admiro, também foi muito significativo. E profissional, eu acho que dá validação para a minha pesquisa e traz esse peso que eu me sinto honrada em carregar. Compós: A sua tese fala sobre desinformação, a vacina contra a COVID-19 e esses assuntos convergindo para as redes sociais. Como surgiu esse tema? Como a pandemia influenciou? Luana: Eu ingressei no doutorado em 2020. Eu tive exatamente uma aula antes da pandemia e da quarentena. Retornei à universidade só no final do ano, no segundo semestre, então fui extremamente impactada. E eu ingressei com outro projeto, me interessava pela questão do negacionismo em uma perspectiva histórica desde a graduação, quando eu estudei como os jornais da época da ditadura civil-militar falavam sobre a efeméride do golpe, as comemorações dos aniversários do golpe… Eu acho que o nosso problema de pesquisa sempre vem de um desconforto que a gente percebe relacionado à sociedade ou um problema que mexe com a gente. Isso foi em 2014, logo depois das jornadas de junho, eu tinha aquela coisa “por que as pessoas negam a ditadura? Por que tem grupos que acham que a ditadura foi boa?”. E daí eu queria entender os discursos dessas festividades que construíram essa ideia de revolução positiva para o país. No mestrado, eu segui trabalhando nessa temática, com o imaginário de 1968 no Jornal O Globo e a minha intenção era entender como foi construída a narrativa política naquele ano, a partir dos eventos políticos que possibilitaram uma conjuntura em que o AI-5 pudesse acontecer. Porque a gente já estava numa ditadura e foi um enrijecimento. Como se construiu os argumentos que basearam essa possibilidade da ditadura dentro da ditadura? Por que as pessoas, ainda hoje, questionam se houve uma repressão, se houve tortura? O AI-5 é um evento político muito importante nesse sentido, de que antes se poderia pensar na ditadura positivamente e depois não. Portanto, eu venho de uma origem e de um interesse de pesquisa do negacionismo histórico. Mas quando começou a pandemia, outras questões começaram a chegar. Não que os outros temas de pesquisas não continuassem com importância, mas começaram a surgir questões muito urgentes. A gente começou a ver a ciência ser totalmente questionada e o negacionismo científico, que já vinha ali pelas beiradas, chegou no centro dessa arena. A gente constrói tanta ciência em relação às vacinas, é um país com uma história vacinal muito estruturada, que tem o SUS, o plano nacional de imunização e que conseguiu erradicar doenças, tem o Zé Gotinha… Como a gente
Compós entrevista: Iago Porfírio, menção honrosa de tese do Prêmio Compós 2025
A Compós entrevistou Iago Porfírio, doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com estágio no Instituto de Investigaciones Antropológicas da Universidad Nacional Autónoma de México (IIA/UNAM). Foi professor no Departamento de Educación y Comunicación (DEC), da Universidad Autónoma Metropolitana, Unidade Xochimilco (UAM-X), na Cidade do México e atualmente está vinculado ao Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares da Universidade de São Paulo (IPEN/USP). Iago é autor da tese “O povo do raio: a cosmopolítica nos coletivos de cinema documentário entre os Guarani”, menção honrosa da categoria no Prêmio Compós de Teses e Dissertações Eduardo Peñuela 2025. Compós: A minha primeira pergunta é sobre o prêmio e sua repercussão. O que significou para você receber a menção honrosa na categoria tese? Iago Porfírio: Quando eu soube da notícia, eu estava no México ainda. Eu fiquei muito feliz porque é um reconhecimento de um esforço coletivo. Desde a concepção do projeto, que foi pensado na interlocução com os grupos de pesquisa de colegas da UFMG, da própria UFBA. O outro ponto é que o doutorado é um passo muito importante para a definição da carreira científica, então também tem as questões subjetivas da trajetória, do empenho que a gente coloca na execução do projeto, então eu fiquei muito feliz porque há o reconhecimento desse esforço pessoal. De iniciar essa jornada, fazer o estágio de pesquisa lá no México, sem bolsa, com as implicações de fazer pesquisa sem financiamento, ainda mais em outro país. Eu fui somente com a bolsa do CNPQ, não tinha nenhum vínculo com o PSDE ou Capes/PrInt, e isso implicou uma série de questões pessoais, de sobrevivência e subsistência financeira. Então foi uma felicidade, ainda mais vindo de uma instituição como a Compós, que é importantíssima para a área da Comunicação… Ter concorrido com excelentes trabalhos, que depois eu pude acompanhar, e pessoas que conheço de nome e concorreram. E aí veio a indicação do próprio Póscom para o Prêmio Capes, recentemente ganhamos na categoria de Ciências Sociais Aplicadas da Premiação da UFBA, também ganhamos um edital para publicação do livro… Mais ou menos há um mês, eu encaminhei o original para a Edufba e eu percebi que foi um outro processo, sabe? Uma outra tese porque tem toda a questão da adaptação da linguagem ao formato do livro, que vai ser publicado provavelmente no próximo ano. Eu sinto que se fechou um ciclo muito bem, não somente pautado em um esforço individual, mas em questões mais coletivas. A própria construção teórica, uma inquietação minha de usar a metodologia que eu propus no projeto, que as análises fílmicas fossem feitas junto com os povos, ou seja, na ideia que eu discuto na tese sobre a pedagogia das imagens a partir do vídeo nas aldeias… E aí não foi possível porque eu já estava planejando fazer essa interlocução com os colegas lá do México, com os quais eu já vinha tendo contato na pandemia, acompanhando de maneira remota as atividades que eles desenvolviam, cursando as disciplinas e tal, então não foi possível… Mas voltando ao coletivo, a construção teórica discutindo com autores contracoloniais, a Silvia Rivera Cusicanqui, o Antônio Bispo… E a própria perspectiva dos realizadores e realizadoras indígenas, ainda que movimentando conceitos eurocentrados, que é um grande problema na academia. E aí é interessante porque eu trabalho muito com a concepção da comunicação intermundos desenvolvida pela Luciana Oliveira, dessa interlocução e diálogo entre diferentes perspectivas, tanto de saberes tradicionais como acadêmicos, que incidem também na própria produção fílmica. Ou seja, produções que são feitas em diálogo com os conhecimentos dos povos, mas também com os conhecimentos eurocentrados de uma linguagem técnica que é afetada por esses conhecimentos. Então, a felicidade foi em saber, também, que esse tema tem produzido importantes reflexões na academia. Compós: E como surgiu esse tema para você? Onde e quando nasceu esse interesse? Iago: Ele ganhou corpo na pandemia numa disciplina ministrada pelo querido André Brasil, que inclusive lançou pela UFMG um livro sobre os cinemas indígenas, que é um termo que eu defendo na tese, essa pluralidade, as diferentes manifestações. Por que eu digo que ele ganhou corpo? Porque eu já tinha feito o trabalho etnográfico com os Guarani, inclusive a imagem de abertura do prólogo e a imagem que mantemos na versão do livro impresso pela Edufba é da dona Damiana, importante figura na luta pelos povos Guarani-Kaiowá e figura central no Martírio, o filme do Vincent de 2016. Então já havia realizado um trabalho etnográfico, tinha interesse pelo cinema de maneira geral, a minha dissertação foi no campo do audiovisual. Fiz outras disciplinas com o Eduardo Viveiros de Castro, justamente sobre o antropoceno, com o Renato Sztutman na USP, também sobre políticas do antropoceno. E aí eu fui construindo, a partir dessas interações, a própria concepção do projeto. Fui percebendo que há uma afetação, por exemplo, na própria linguagem desse cinema dos povos, justamente porque, e eu digo especificamente dos Guarani, a preocupação central é a cosmopolítica. Ou seja, como eles dialogam? Não no sentido estrito do termo, mas como relacionam uma concepção de política que é muito própria deles? Eu estou falando, por exemplo, do trabalho do Spensy Pimentel, que desenvolveu a proposta de uma teoria política dos Guarani-Kaiowá, que vai surgir com as assembleias Aty Guasu, como que eles relacionam essa ideia de política com o cosmológico… E isso é fortemente expressado nas próprias imagens dos filmes que eu vou analisando ali, das Guahu’i Guyra do coletivo Guarani-Kaiowá de Mato Grosso do Sul, também dos Mbyá do Rio Grande do Sul. Então tem essa preocupação de como inserir a política no cosmo e debater com outras questões mais teóricas… Da Marisol de la Cadena, como essa nova perspetiva de política pode ser convocada para a arena de um debate mais amplo, em que sejam contempladas outras figuras que eram silenciadas, figuras não humanas, por assim dizer? E que está em diálogo com temas “na moda” hoje, tanto na academia, como nos debates políticos… Na
Compós entrevista: Simone Munir, autora da tese vencedora do Prêmio Compós 2025
A Compós entrevistou Simone Munir Dahleh, brasileira e descendente de palestinos, publicitária formada pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa), mestra e doutora em Comunicação pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e autora da tese vencedora do Prêmio Compós de Teses e Dissertações Eduardo Peñuela 2025, intitulada “A trama tecida por mulheres palestinas: relatos biográficos dos usos táticos de tecnologias digitais”. Compós: Nossa primeira pergunta é justamente sobre o reconhecimento da sua pesquisa. Como foi receber o prêmio de melhor tese neste ano?Simone Munir Dahleh: Foi muito inesperado e um momento muito feliz da minha vida, tanto pessoal quanto acadêmica, porque a gente se dedica tanto para um trabalho, ainda mais quando mexe contigo pessoalmente, por algum motivo, pela questão política que a Palestina passa durante tanto tempo e que está passando atualmente. Então fiquei muito feliz por isso, porque eu senti que além da minha pesquisa estar sendo reconhecida, a causa Palestina teve um foco na nossa área da Comunicação, para os pesquisadores… Muitos colegas e professores se informam sobre a Palestina, mas é algo muito distante ainda. É difícil ir atrás de uma questão que está mais distante de nós. Então quem está aqui no Ocidente acaba se informando por meio das mídias hegemônicas. E quando eu trago uma pesquisa que vai ressaltar justamente o que as mulheres comuns da Palestina estão falando sobre a causa e isso ganha um foco, as pessoas vão ler a pesquisa, se interessam em procurar, nem que leiam só um capítulo, mas se interessam de algum modo… Eu fiquei muito emocionada com isso, levei essa notícia para a minha família que está lá na Palestina, para os meus amigos e isso dá um gás muito bom para a temática, para a nossa vida pessoal. Eu fiquei muito orgulhosa do trabalho que eu fiz. Ser reconhecida assim foi a cereja do bolo, foi um marco muito importante para minha vida e para a causa Palestina, principalmente. Compós: Você olha na sua tese para os usos táticos das tecnologias digitais por mulheres palestinas aqui no Brasil. E eu lembro que, quando você recebeu o prêmio no 34º Encontro Anual da Compós, você falou um pouco sobre a importância desse assunto, não só na academia, mas na sua vida pessoal. Você poderia falar mais sobre como surgiu esse tema?Simone: Eu tenho origem palestina, eu e toda a minha família. Eu sou descendente de palestinos, o meu irmão nasceu lá, minhas irmãs e meus pais nasceram no Brasil, mas a gente morou um tempo da nossa vida, minhas irmãs até a idade adulta e depois foram morar em Chicago. Mas a conexão com a Palestina foi desde que eu me conheço por gente. Primeiro eu me identifiquei como uma mulher palestina, palestina-brasileira, para depois ir entendendo mais. Mas eu sempre vivi nessas duas culturas, nessas duas origens. E, claro, enquanto sujeito, eu fui constituindo a minha consciência estando na Palestina, porque me alfabetizei lá, da 1º à 4º série, por mais que a gente falasse o português em casa, eu estava na escola aprendendo árabe, a escrever em árabe, rezando… A gente é ingressado ali no Islã desde pequenininhos porque é algo cultural, a religião é muito forte para os árabes. Então eu sempre convivi com a cultura, a culinária, a língua árabe. E também observando a opressão israelense que é forte até os dias de hoje, que atinge a vida de todos os palestinos. Só não atinge quem nunca teve contato, nunca se interessou em saber sobre o assunto, porque afeta a vida de todos. Estar lá e ver os israelenses tomando as ruas, fazendo toque de recolher, apontando um fuzil para tua cara. Eu era uma criança e eles não têm nenhuma distinção com mulher, criança, os mais vulneráveis… Vão tratar todo mundo assim, de uma forma animalesca, como se a gente fosse um nível abaixo deles. Isso sempre me marcou muito. E imagina uma criança, que está descobrindo o mundo, observar tudo aquilo? Por mais que a gente, enquanto criança, não tenha discussões políticas (porque obviamente não vai se conversar isso), eu sempre observei aquilo e sempre me incomodou, porque incomoda. Tu vês que eles estão fazendo alguma coisa errada e aí “por que eu tenho que deixar minha escola para ir correndo para casa?”, porque eles estão tomando as ruas… “Mas o que eu tenho a ver com isso? Eu só quero estudar!”, mas eu tenho que parar e ir correndo para casa… E te vira se tu vais conseguir chegar em casa bem, inteira, é isso aí. Então aquilo sempre me incomodou até a gente voltar aqui para o Brasil. A gente tinha casa e loja em Porto Xavier, vendemos tudo e voltamos para Palestina porque a ideia era a reunião familiar, que todos fossem morar lá para ficarem juntos. Minhas irmãs maiores ficaram lá e eu, meu irmão e minha mãe viemos para o Brasil para resolver as coisas. Nisso que a gente tentou reingressar na Palestina, deu um problema com o visto da minha mãe e nós fomos deportados. Eu tinha uns 9 anos, meu irmão bebezinho, uns 2 ou 3 aninhos, e eu vi o jeito que eles falavam com a gente numa salinha do aeroporto, cheia de câmeras, como se a gente fosse presidiário, como se nós fôssemos atacá-los (enquanto eram eles que estavam nos atacando de vários modos). E aí meu pai tentou fazer todo o trâmite para que a gente ingressasse pela Jordânia, mas não deu certo e a gente foi deportado. Então voltamos ao Brasil com um soldado israelense no mesmo avião, cuidando para a gente não fugir. Essas coisas me marcaram muito profundamente e eu sempre quis falar disso de algum modo porque as pessoas têm muita desinformação com a questão Palestina. De fato chega pouca notícia para cá e muita notícia distorcida. É difícil a comunicação e a mídia serem fortes lá na Palestina, por toda a censura que também existe no território. Eu sempre tive muita vontade de falar e
Calendário Prêmio COMPÓS 2026
A Diretoria da COMPÓS divulga o calendário do Prêmio COMPÓS de Teses e Dissertações Eduardo Peñuela Canizal 2026, aprovado em consulta ao Conselho da associação, finalizada em 30 de outubro de 2025. Lembramos que, conforme seu regulamento, as inscrições para o Prêmio COMPÓS correspondem a trabalhos defendidos no ano de 2025 no âmbito dos programas associados à COMPÓS e em situação regular. Cada PPG deve proceder, de acordocom seus próprios critérios, à escolha dos trabalhos (uma tese e uma dissertação) que o representarão no Prêmio COMPÓS. Diretoria da COMPÓS 2025-2027
Compós e PPgEM (UFRN) lançam site oficial do 35º Encontro Anual da Compós
O 35º Encontro Anual da Compós será realizado entre 9 e 12 de junho em Natal-RN. A Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação e o Programa de Pós-graduação em Estudos da Mídia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sede do evento em 2026, lançaram o site oficial do 35º Encontro Anual da Compós. O site já está no ar disponível no endereço https://compos2026.softaliza.com.br/. O evento será realizado na sede da UFRN em Natal de 9 a 12 de junho com o tema “Saberes Ancestrais e Novos Horizontes da Pesquisa em Comunicação”. As submissões de trabalho já estão abertas e podem ser feitas por meio do site. O prazo para submissão vai até o dia 23 de fevereiro de 2026. “Realizar a Compós 2026 em Natal é importante para o PPgEM por dois aspectos: primeiro por entrar para a história na área ao termos a primeira indígena que será conferencista de abertura – no ano passado o Paraná fez história com a primeira mulher negra e agora teremos a primeira mulher indígena, Graça Graúna; e o outro aspecto é que em 2026 o nosso doutorado completa 10 anos, a primeira turma foi aberta em 2016, então vamos comemorar 10 anos do doutorado do PPgEM junto com toda a comunidade científica da Compós”, disse o coordenador do PPgEM, Juciano Lacerda. O evento busca fortalecer o papel dos saberes ancestrais como alicerce para o desenvolvimento de novas perspectivas teóricas e práticas ao promover transformações na academia e na sociedade, no que tange à diversidade de epistemes, gêneros, raças, regiões e culturas. Serão 12 artigos em cada um dos 24 grupos de trabalho (GTs), conforme aprovado pelo Conselho Geral da Compós, e mais um conjunto de mesas temáticas, oficinas e espaços para troca de saberes. O site está em processo de alimentação das informações essenciais e adicionais e será atualizado rotineiramente até o início do evento.
CHAMADA DE TRABALHOS COMPÓS 2026
O 35° Encontro Anual da COMPÓS ocorrerá de 09 a 12 de junho de 2026, de forma presencial, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em Natal. O tema do evento será “Saberes ancestrais e novos horizontes da pesquisa em comunicação”. O objetivo é fomentar reflexões críticas e aprofundar discussões sobre como os saberes tradicionais e as inovações contemporâneas podem dialogar para enriquecer o pensamento comunicacional brasileiro. Para o Encontro Anual de 2026, os 24 GTs da Compós receberão trabalhos de 17 de novembro de 2025 a 23 de fevereiro de 2026. Para submeter trabalhos, os autores/as deverão observar as ementas dos GTs disponíveis na página da Compós – https://compos.org.br/nossos-gts/ – e utilizar, obrigatoriamente, o template. Informações adicionais estarão disponíveis no site oficial do evento, que será lançado nos próximos dias e no site da Compós: https://compos.org.br/ CRONOGRAMA Envio de trabalhos para os GTs: de 17/11/2025 a 23/02/2026. Os pareceres serão realizados entre: 25/02/2026 e 25/03/2026. Coordenadores dos GTs terão até o dia 30/03/2026 para confirmar os aceites no sistema. A lista de trabalhos aprovados será divulgada no site da Compós e no site do evento até 06/04/2026. A programação dos GTs (com os respectivos relatores dos artigos) deverá ser enviada para a vice-presidência e para os participantes do GT por cada coordenador(a) até 28/04/2026. Os (as) relatores(as) dos artigos devem enviar os respectivos relatos para o/a coordenador(a) do GT até 18/05/2026. O/A coordenador(a) posteriormente enviará aos participantes os relatos de acordo com as normas de cada GT. Regras Gerais de Submissão: Lembramos que o link para submissão dos trabalhos e o site do evento estarão disponíveis em breve na página principal da associação.