A Compós entrevistou Iago Porfírio, doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com estágio no Instituto de Investigaciones Antropológicas da Universidad Nacional Autónoma de México (IIA/UNAM). Foi professor no Departamento de Educación y Comunicación (DEC), da Universidad Autónoma Metropolitana, Unidade Xochimilco (UAM-X), na Cidade do México e atualmente está vinculado ao Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares da Universidade de São Paulo (IPEN/USP). Iago é autor da tese “O povo do raio: a cosmopolítica nos coletivos de cinema documentário entre os Guarani”, menção honrosa da categoria no Prêmio Compós de Teses e Dissertações Eduardo Peñuela 2025.
Compós: A minha primeira pergunta é sobre o prêmio e sua repercussão. O que significou para você receber a menção honrosa na categoria tese?
Iago Porfírio: Quando eu soube da notícia, eu estava no México ainda. Eu fiquei muito feliz porque é um reconhecimento de um esforço coletivo. Desde a concepção do projeto, que foi pensado na interlocução com os grupos de pesquisa de colegas da UFMG, da própria UFBA. O outro ponto é que o doutorado é um passo muito importante para a definição da carreira científica, então também tem as questões subjetivas da trajetória, do empenho que a gente coloca na execução do projeto, então eu fiquei muito feliz porque há o reconhecimento desse esforço pessoal. De iniciar essa jornada, fazer o estágio de pesquisa lá no México, sem bolsa, com as implicações de fazer pesquisa sem financiamento, ainda mais em outro país. Eu fui somente com a bolsa do CNPQ, não tinha nenhum vínculo com o PSDE ou Capes/PrInt, e isso implicou uma série de questões pessoais, de sobrevivência e subsistência financeira. Então foi uma felicidade, ainda mais vindo de uma instituição como a Compós, que é importantíssima para a área da Comunicação… Ter concorrido com excelentes trabalhos, que depois eu pude acompanhar, e pessoas que conheço de nome e concorreram. E aí veio a indicação do próprio Póscom para o Prêmio Capes, recentemente ganhamos na categoria de Ciências Sociais Aplicadas da Premiação da UFBA, também ganhamos um edital para publicação do livro… Mais ou menos há um mês, eu encaminhei o original para a Edufba e eu percebi que foi um outro processo, sabe? Uma outra tese porque tem toda a questão da adaptação da linguagem ao formato do livro, que vai ser publicado provavelmente no próximo ano. Eu sinto que se fechou um ciclo muito bem, não somente pautado em um esforço individual, mas em questões mais coletivas. A própria construção teórica, uma inquietação minha de usar a metodologia que eu propus no projeto, que as análises fílmicas fossem feitas junto com os povos, ou seja, na ideia que eu discuto na tese sobre a pedagogia das imagens a partir do vídeo nas aldeias… E aí não foi possível porque eu já estava planejando fazer essa interlocução com os colegas lá do México, com os quais eu já vinha tendo contato na pandemia, acompanhando de maneira remota as atividades que eles desenvolviam, cursando as disciplinas e tal, então não foi possível… Mas voltando ao coletivo, a construção teórica discutindo com autores contracoloniais, a Silvia Rivera Cusicanqui, o Antônio Bispo… E a própria perspectiva dos realizadores e realizadoras indígenas, ainda que movimentando conceitos eurocentrados, que é um grande problema na academia. E aí é interessante porque eu trabalho muito com a concepção da comunicação intermundos desenvolvida pela Luciana Oliveira, dessa interlocução e diálogo entre diferentes perspectivas, tanto de saberes tradicionais como acadêmicos, que incidem também na própria produção fílmica. Ou seja, produções que são feitas em diálogo com os conhecimentos dos povos, mas também com os conhecimentos eurocentrados de uma linguagem técnica que é afetada por esses conhecimentos. Então, a felicidade foi em saber, também, que esse tema tem produzido importantes reflexões na academia.
Compós: E como surgiu esse tema para você? Onde e quando nasceu esse interesse?
Iago: Ele ganhou corpo na pandemia numa disciplina ministrada pelo querido André Brasil, que inclusive lançou pela UFMG um livro sobre os cinemas indígenas, que é um termo que eu defendo na tese, essa pluralidade, as diferentes manifestações. Por que eu digo que ele ganhou corpo? Porque eu já tinha feito o trabalho etnográfico com os Guarani, inclusive a imagem de abertura do prólogo e a imagem que mantemos na versão do livro impresso pela Edufba é da dona Damiana, importante figura na luta pelos povos Guarani-Kaiowá e figura central no Martírio, o filme do Vincent de 2016. Então já havia realizado um trabalho etnográfico, tinha interesse pelo cinema de maneira geral, a minha dissertação foi no campo do audiovisual. Fiz outras disciplinas com o Eduardo Viveiros de Castro, justamente sobre o antropoceno, com o Renato Sztutman na USP, também sobre políticas do antropoceno. E aí eu fui construindo, a partir dessas interações, a própria concepção do projeto. Fui percebendo que há uma afetação, por exemplo, na própria linguagem desse cinema dos povos, justamente porque, e eu digo especificamente dos Guarani, a preocupação central é a cosmopolítica. Ou seja, como eles dialogam? Não no sentido estrito do termo, mas como relacionam uma concepção de política que é muito própria deles? Eu estou falando, por exemplo, do trabalho do Spensy Pimentel, que desenvolveu a proposta de uma teoria política dos Guarani-Kaiowá, que vai surgir com as assembleias Aty Guasu, como que eles relacionam essa ideia de política com o cosmológico… E isso é fortemente expressado nas próprias imagens dos filmes que eu vou analisando ali, das Guahu’i Guyra do coletivo Guarani-Kaiowá de Mato Grosso do Sul, também dos Mbyá do Rio Grande do Sul. Então tem essa preocupação de como inserir a política no cosmo e debater com outras questões mais teóricas… Da Marisol de la Cadena, como essa nova perspetiva de política pode ser convocada para a arena de um debate mais amplo, em que sejam contempladas outras figuras que eram silenciadas, figuras não humanas, por assim dizer? E que está em diálogo com temas “na moda” hoje, tanto na academia, como nos debates políticos… Na COP30, por exemplo, as questões climáticas, as devastações ambientais, o próprio modo de percepção de vida desses povos. Não se trata somente de uma questão, como vai dizer o Ailton Krenak, de adiar o fim do mundo, os povos já vivem o fim do mundo há mais de 500 anos, então, como articular os possíveis modos de habitar esses outros mundos considerando essas figuras? Aí eu fui percebendo essa perspectiva mais cosmopolítica das imagens, construídas em diálogo não com categorias da linguagem cinematográfica, mas com os saberes, as práticas políticas dos povos, essas imagens como uma reivindicação política, como um documento jurídico. Ali, o indígena fala “se a gente tivesse um celular, talvez eles não teriam invadido dessa maneira”. A imagem como um recurso jurídico ou como contranarrativas, constrói uma outra ideia além da ideia estereotipada em torno desses povos. Então eu acho que nasce dessa preocupação de entender esse cinema Guarani-Kaiowá e o cinema documentário entre os povos Guarani. E também desses outros diálogos construídos desde 2016, lá em Jaguapiru Bororó, que é a aldeia em Dourados onde eu estive durante dias desenvolvendo outros trabalhos, que resultaram em uma entrevista longa com a Damiana, que nunca foi publicada e vai ser agora na Ponto Urbe, da FFLCH. Foi sendo construído assim, ao longo de várias etapas da minha formação.
Compós: Na sua tese, logo no resumo, você fala sobre a “comunicação intermundos”. Pensando nessa tentativa de unir o conhecimento ameríndio com as tecnologias contemporâneas, como foi trabalhar o conjunto de teorias sobre esse conceito?
Iago: O que a gente percebeu foi que, por exemplo, a Isabelle Stenger vai defender a cosmopolítica como um conceito de proposição, mas que também é comunicativo a partir do momento em que propõe estabelecer uma estrutura comunicativa com uma outra arena política. A comunicação intermundos, nesse sentido que a gente identificou nas produções, vai considerar esse diálogo epistemológico do conhecimento ameríndio com essas tecnologias e linguagens da comunicação cinematográfica, os modos de fazer audiovisual que são, por assim dizer, canonizados em um pensamento filosófico do que é a imagem cinematográfica, e que é afetada por esse cânone. Ou seja, são outros modos de fazer audiovisual que nos exigem outros modos de pensá-lo, sobretudo a forma fílmica, desde a perspectiva do conhecimento ameríndio. Aí a gente usa algumas dimensões para entender como se manifesta essa ideia da cosmopolítica, da comunicação intermundos, o conceito do dissenso pensado ali com Rancière, o conceito da performance com a Leda Martins, a questão da fabulação… São dimensões que vão mobilizar essa forma fílmica no contexto da cinematografia entre os povos Guarani-Kaiowá. Então a comunicação intermundos, muito pensada no conceito da Luciana Oliveira, pensa os modos e as experiências cinematográficas que vão construir essas outras formas de produção, a confluência de saberes… Como vai dizer o Antônio Bispo, outra figura muito importante para pensar esse atravessamento da comunicação intermundos. Uma comunicação intermundana que vai possibilitar esse atravessamento de conhecimentos inter epistêmicos, a própria ideia de enfeitiçar a linguagem, como diz o Nego Bispo, uma linguagem modificada a favor dos próprios povos. A própria prática metodológica da tese, da forma como foi feita essa leitura, ressalvando as críticas que eu tenho porque a ideia inicial era justamente pensar isso com os povos, fazer uma visionagem coletiva, trazer essas perspectivas… Enfim, corresponde muito a essa ideia de referenciar outros conhecimentos que incidem na própria forma fílmica.
Compós: Como foi para você o processo de investigação, de conversar e conhecer os coletivos? E também a tentativa de olhar esses documentários com os povos indígenas para a construção dos dados da sua pesquisa?
Iago: Se a gente for pensar a ideia mais estrita do que é a etnografia, lá com Malinowski, com Robert Flaherty, com John Rush, por exemplo, era pensar a metodologia de um cinema compartilhado. Não foi possível, mas a metodologia de leitura para esses filmes foi justamente voltando à comunicação intermundos. Eu conhecia grande parte desses filmes e fui pensando de que maneira a participação deles poderia se encaixar na metodologia. Eu não fiz trabalho de campo, embora tenha realizado algumas atividades de campo no Brasil e no México, em Oaxaca, que é onde vai nascer o cinema indígena mexicano. Foi também a possibilidade ou a intenção de me distanciar de uma visão eurocentrada do que é a análise fílmica, ainda que eu utilize em algumas partes da tese para fazer a leitura dos filmes uma visão canonizada do que é a linguagem cinematográfica. A metodologia foi muito pensada a partir dessa ideia da comunicação intermundos, como eu ia movimentando esses autores já canonizados e outros intelectuais afrodiaspóricos para criar essa metodologia de participação mais coletiva, a base do método da minha própria análise fílmica. Quando eu fiz a disciplina da Dominique Gallois, a gente debatia a questão das redes de colaboração em pesquisa, que anda junto com a ideia da comunicação intermundana. Então eu fui pensando nos modos acadêmicos e não acadêmicos de construção analítica dessas produções de maneira a estabelecer um diálogo entre o conhecimento científico e o que se entende por conhecimentos tradicionais. Por exemplo, quando a ASCURI vai fazer aquele projeto mirando mundos possíveis com pesquisadores da antropologia da USP, tem momentos em que esse conhecimento mais científico da importância da vacina (e tem aí outro debate em que as medidas preconizadas pela ciência eram desprezadas, em um contexto absurdo de ignorância, de repressão e tudo mais que todos nós vivemos), mas não é desprezado o conhecimento tradicional. O momento em que o indígena sai do posto de saúde indígena com os comprimidos, com a vacina e vai diretamente fazer uma espécie de ritual com o líder espiritual… Então é pensar essa rede de colaboração em pesquisa do próprio ponto de vista metodológico. Ou seja, o que eu procurei construir foi um modelo de análise que tivesse como base os modos de enunciação desses sujeitos em cena, por isso foi importante pensar a categorização da performance que levasse em consideração outros regimes de visibilidade que perturbassem os desentendimentos ou as dissidências do que é visível. Construir por outros discursos. A questão do dissenso e da fabulação, a reconstrução através da memória, a fabulação em diálogo com a Leda Martins, que pensa essa questão com o pensamento afro-indígena. Essa foi minha preocupação com a construção do modelo metodológico, ainda que nele não tenha surtido um efeito mais prático, no sentido de campo. Mas esse foi o pensamento que a gente foi nutrindo ao longo da pesquisa.
Compós: É muito legal você mostrar que às vezes a gente planeja seguir por uma linha teórica ou metodológica e mudanças acontecem, por inúmeros motivos. Espero que pós-graduandos possam se identificar, entender que está tudo bem, a pesquisa não acabou.
Iago: Lá no México, eu dei aula numa pós-graduação em ciências da educação, mas pensando em metodologia de pesquisa, construção de projeto… Foi a minha primeira experiência a nível de docência em pós. Então, você está ali do outro lado, agora é ensinar a fazer a partir de outras experiências e também fazer e aprender junto, porque é uma troca. Eu sempre dizia “o projeto é um guia”. Ele vai mudar constantemente de acordo com a construção do próprio objeto científico. Então não é que tudo o que está no projeto necessariamente vai acontecer. A gente segue métodos científicos e a construção do projeto de pesquisa é importantíssimo. Como eu vou a campo, organizar as leituras sem ter um norte? Vai construir uma reportagem, uma notícia, sem ter uma pauta? Quem eu vou entrevistar, vou falar de quê? A minha ida ao México eu tinha pensado já no projeto, coloquei a definição de cronograma, o que eu quero fazer, enfim… E aí eu fui pensando estabelecer um diálogo com o movimento zapatista, a coisa da comunicação comunitária. Ela foi ganhando outro corpo e estabelecendo um diálogo mais de perto com o professor que me recebeu, e falou “não, esse conceito que você movimenta na tese tem muito mais a ver, nesse sentido, com a formação dos coletivos”. Eu identifiquei uma coisa muito interessante ao longo da pesquisa documental, e que a gente depois transformou em um artigo, que é justamente esse período do VNA que é muito importante para a formação do que a gente chama de cinemas indígenas, com duas fases, uma mais pedagógica e a outra mais de autonomia. A câmera passa da mão do Carelli e dos pesquisadores da USP para a mão dos indígenas, e essas fases coincidem também com o projeto TMA, de transferência de meios de artes visuais, que surge na década de 80 lá em Oaxaca, a cidade com maior número de população indígena do país e que com essa proposta começa a formação audiovisual, de realizadores e realizadoras indígenas; depois em uma outra fase, os indígenas e as indígenas assumem esse papel mais autoral. Eu fui com uma ideia e lá eu tive um outro encontro, uma outra preocupação epistemológica, de não se amarrar ao projeto, “não, eu quero porque quero isso!”. Meu orientador, José Francisco Serafim, foi muito cuidadoso e eu acho que isso diz muita coisa da tese.. O diálogo bem polido, a relação bem construtiva, estabelecida. Você não pode querer tentar fazer tudo em quatro anos e esgotar as possibilidades que a discussão pode gerar. Querer fazer trabalho de campo, ir à Dourados da Bahia para Salvador, depois para o México, envolver outros movimentos. As coisas vão ganhando corpo de acordo com a construção, à medida que é feito. Como dizia a Immacolata nas aulas de metodologia na ECA, na medida em que o próprio objeto é construído e desconstruído. Eu sei que num processo de seleção de mestrado e doutorado nossa base é um projeto e muitas vezes a gente fica apegado. Foi o que eu fui percebendo, tanto que antes de mudar um pouco a perspectiva, eu fiz duas seleções com o mesmo projeto porque não queria estudar cinema indígena. E aí eu falei “não, já está na hora, isso aqui não vai vingar”.
Compós: E o que você gostaria de compartilhar, sobre os seus resultados, que considera mais interessante ou um achado que você não esperava? Algo que você diria “isso aqui eu preciso jogar no mundo para as pessoas saberem”?
Iago: Olha, eu acho que é justamente o segundo capítulo da tese, que é muito interessante porque ele traz essa ideia dos cinemas. A gente vai passando ali, claro, por diferentes países e muito em diálogo com um movimento da própria antropologia fílmica da década de 70/80, em que voltava-se a preocupação às comunidades indígenas, que estavam se empenhando em uma produção comunicativa, no sentido prático do conceito… Produção radiofônica, produção audiovisual… E essa prática surge justamente balizada na ideia da comunicação libertadora, por exemplo. O segundo capítulo traz coisas que eu não saberia se eu ficasse muito focado ali na produção, ainda que o foco fosse os Guarani-Kaiowá e que exista um universo de produção cinematográfica muito rico e que dá desdobramentos futuros excelentes… O que foi uma dificuldade para mim, do ponto de vista dessa pesquisa mais documental. Porque juntar fragmentos é muito complicado, às vezes pode não encontrar trabalhos teóricos sobre determinada produção, de determinado país. Aqui no Brasil a gente tem muito, está surgindo esse florescimento das discussões acadêmicas do cinema indígena, mas em outros países não tanto, como Peru e Chile. Para mim, essa ideia de conhecer os coletivos de outros países e outras produções, e os artigos que a gente fez, o livro que vai ser publicado… Que é o “Cosmopolítica e cosmologia das imagens no cinema documentário entre o povo Guarani”, e que é a tese, mas adaptada.
Compós: Agora, a última pergunta é também especial para os nossos leitores. O que você gostaria de compartilhar sobre a sua trajetória na pós-graduação?
Iago: Pode parecer clichê, mas o conhecimento é a única coisa que ninguém tira da gente e ele nos dá instrumentos para lidar com situações bem complicadas da vida cotidiana, entender as coisas de outra maneira. Tem muitas críticas, que às vezes são compreensíveis… “A academia adoece, não tem retorno, depois fica aí com o doutorado e sem nenhum norte na vida”… Mas eu diria “não desista” porque eu olho o passado, e eu sou da periferia de São Paulo, uma pessoa que passava horas na rua recolhendo papéis recicláveis para poder comer, que trabalhava como flanelinha, vendia bala no semáforo, que sentiu na pele uma das piores coisas da humanidade que é a fome… Estar nesse outro nível, é claro que por conta de uma série de políticas públicas instituídas nos últimos anos, não foi fácil obviamente, mas dá um certo prazer. Não desse discurso que eu rechaço muito, “ah o vencedor!”, mas poxa vida, eu acho que sim, vale a pena. Esses outros discursos eu compreendo, no mestrado a gente via isso, colegas que pediam afastamento porque adoeciam, enfim… Não se pode julgar, cada um lida com os contextos de forma muito particular e subjetiva. Mas eu diria “insista!”. Insista, vá até o fim porque vale a pena. Tem um grande colega meu, depois a gente começou a trabalhar na mesma instituição lá na UNAM, que é o Antonio Zirión, pesquisador mexicano, e ele falou “o que importa é fazer um bom trabalho, aproveitar esse tempo e fazer um bom trabalho. Um trabalho que possa render alguma coisa, dar sentido ao que se propõe em fazer”. E eu acho que é por aí, sabe? Dar sentido ao que se propõe a fazer e não desistir, buscar caminhos para poder lidar com situações adversas. Eu não consegui a bolsa para fazer o doutorado sanduíche e eu falei “que se dane, vou sem bolsa”. Eu sou uma pessoa na vida que já estou calejado, seja o que Deus quiser. É claro que eu não dou conselho para fazer isso porque é muito complicado. Enfim, é essa mensagem: não desistir porque se eu vou ficar quatro anos pesquisando uma coisa, eu tenho que ter paixão por aquilo. Eu não vou pesquisar uma coisa que eu nem gosto, não gosto dos autores, não acredito. Essa ideia da pesquisa como ato de afeto, o próprio Martín-Barbero falava “afeto é o que nos afeta”. O que nos afeta nos gera uma preocupação ou esse “calafrio epistemológico”, como ele diria. Então é isso, fazer com amor e com resistência, apesar das complicações burocráticas, institucionais, das crises existenciais e de políticas públicas para ciência… Não é fácil, mas vale a pena.
Compós: Essas eram as minhas perguntas e eu agradeço, Iago, pela sua participação e disponibilidade para estar conosco. Agora eu deixo o espaço aberto para você.
Iago: Eu agradeço à universidade pública, agradeço à UFBA, ao meu orientador, às pessoas muito queridas que me receberam no México, o povo Mazateca lá de San Jose Independencia, de Oaxaca, que me recebeu e me acolheu. A lista é infinita, eu sempre digo que sozinho a gente não faz nada em nenhum lugar da vida. O mérito, obviamente, não é só meu, se não das pessoas que construíram esse diálogo. Do Corisco, um grupo que eu faço parte com a Luciana do PPGCOM da UFMG, do Nanook da UFBA. Ao CNPQ que, ainda que eu não tivesse para esse estágio de pesquisa uma bolsa mais específica, eles mantiveram a bolsa de doutorado, então foi muito importante para eu conseguir me manter nesse período. Tem uma série de instituições e pessoas, enfim…
Você pode ler a tese vencedora na íntegra, acessando este link